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Personagens imaginários
02/11/2011 13:12




 

Especialista

 

Dra. Simone Magaldi

 

Pedagoga, Filósofa e Psicoterapeuta. Especialista em Psicologia Junguiana pela UNAERP. Mestre e doutora em Ciências da Religião (PUCSP e UMESP). Professora de pós-graduação da FACIS, fundadora do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP). Autora do livro Ordem e Caos.



Resumo da entrevista

 

NANCI GIL - Nós vamos falar sobre os personagens imaginários, Papai Noel, Fada do Dente, Coelhinho da Páscoa. Eles são importantes para as crianças? Até que ponto realmente eles são importantes, eles ajudam a construir a psique da criança?
SIMONE MAGALDI – A gente tem que separar muitas coisas desses personagens. Existem aqueles que são criados nos contos de fadas que também são conteúdos da psique inconsciente coletiva.

 

NG – A gente já traz de criança todos esses personagens?
SM - Sim, lá do inconsciente coletivo.

 

NG – Como se fosse DNA?
SM - Retratados nos mitos, nos contos de fadas.

 

NG – São contados de geração para geração, permeando o inconsciente?
SM - Exatamente. Que são fantásticos, que alimentam, retroalimentam (retornam a informação), trazem sempre alguma coisa de moral e isso é muito importante. É bom que os pais contem, alimentem por muito tempo. E que de alguma maneira, até quando a gente é adulto, eu acho muito importante. Até hoje eu fico pensando como é bom a gente lembrar do Papai Noel, por exemplo, e acreditar que em algum momento alguém vai querer ser um Papai Noel para alguma criança pobre, alguém vai viver esse arquétipo (forma imaterial à qual os fenômenos psíquicos tendem a se moldar). E vai se fazer passar por Papai Noel para uma criança pobre, eu aho isso muito importante.

 

NG – E faz um bem para o adulto, não é?
SM - Sim, mais do que para a criança. Então uma criança viver essa experiência de acreditar em Papai Noel e depois ser um adulto Papai Noel para outra criança é muito importante, replicar o arquétipo.

 

NG – Reafirma aquela imagem que a gente tinha de criança?
SM - Exatamente.

 

NG – Então essas pessoas que no Natal presenteiam várias crianças, fazem campanhas fortalecem o arquétipo dentro dele que ele conheceu quando criança?
SM - Exatamente, o arquétipo da fraternidade, isso é mais importante.

 

NG – Dos valores?
SM - Dos valores da fraternidade. Dar um presente para seu filho, que não precisa ser aquele muito caro que ele pediu, mas dar alguma coisa mostrando o valor do Natal, lembrando que tem  uma data simbólica.

 

NG – Não o presente em si, mas o que está em volta daquele presente, a importância do dia?
SM - Exatamente, o simbólico que está no em torno, isso é muito importante. Fazer com que aquilo tenha um significado da fraternidade para quando ele for adulto ele poder replicar não só para o filho dele, mas se possível para um em torno maior, para a fraternidade.

 

NG – Entendi. É como uma semente que a mãe e o pai coloca no coração da criança da fraternidade, de dividir, de ajudar.
SM - Exatamente. O coelhinho da Páscoa ele representa não só o renascimento, mas também a fertilidade,  coisa típica que tem a ver com a mãe, com a maternidade, é outra coisa que está lá no inconsciente coletivo.  Talvez por isso que mulher gosta tanto de chocolate está tão associado com aquela ideia.

 

NG – Ah! eu sabia que você ia achar uma desculpa, a culpa é do coelhinho da Páscoa?
SM - Com certeza, tem a ver com toda aquela questão da fertilidade. Ovos têm a ver com essa questão. Por isso que as mulheres gostam da tradição de pintar os ovos, coelhos, todos eles estão associados com a maternidade, com a fertilidade.

 

NG – As brincadeiras que as mães fazem, por exemplo, o coelhinho da Páscoa, que imitar os pezinhos, por a cenoura escondida, é importante ter argumentos de que realmente existem?
SM - Sim, e a relação, qualquer brincadeira que uma mãe ou o pai possa fazer com o filho é sempre extremamente positiva. Essa integração, brincar com o filho, interagir com o filho vai ser sempre extremamente positivo, isso é sempre muito positivo. Você sai ganhando. Coloque ovinhos pequenininhos, então ele consegue achar vários ovinhos do que um só grandão, porque a brincadeira fica muito mais excitante, muito mais divertida.

 

NG – O comércio não estraga um pouco essa imaginação, a propaganda? Vai no supermercado e tem quilos e quilos de chocolate?
SM - Com certeza.

 

NG – Tem que fazer alguma coisa especial?
SM - Mas você pode fazer o chocolate ou o ovo em casa também. Aliás, junto com a criança fica muito mais divertido: “Vamos fazer juntos, depois a gente vai embrulhar, vai dar para o coelhinho que ele vai esconder”. Você pode criar, inventar, fazer uma série de coisas.

 

NG – E essa experiência para a criança é muito positiva?
SM - É fantástica. Mas temos outro quesito: os amigos imaginários que a criança cria por uma necessidade a ser investigada. Cada caso é um caso.

 

NG – Quer dizer que a gente passaria para outro setor, não são esses personagens?
SM - São os personagens mitológicos e de contos de fadas.

 

NG – A criança cria um amiguinho para ele?
SM - Por necessidade pessoal a ser investigada. Por que ela precisa de um amigo imaginário?

 

NG – Não são todas as crianças que têm esses amigos imaginários, não é tão comum?
SM - Não são todas que têm, não é tão comum. Algumas têm por necessidade psicológica, são crianças às vezes inseguras, carentes, que não têm amigos reais, têm uma dificuldade de socialização. São crianças introvertidas, tímidas, inseguras ou que sofrem abusos. Então é preciso investigar porque ela tem um amigo imaginário.

 

NG – Eu já ouvi ele é muito criativo, ela é muito criativa, tem algo a ver?
SM - Uma criança que sofre abuso em casa e não tem com quem falar, ela vai precisar de um amigo imaginário. Porque se você não tem a segurança da família para se relacionar, você vai ter quem, senão alguém imaginário?

 

NG - Nunca pensei por esse lado. Então é uma saída, um mecanismo de defesa?
SM - Sim, isso é muito sério. Se um professor desconfiar que ele tem um amigo imaginário, ele deveria investigar, porque pode ser um caso desse.

 

NG - Eu já ouvi , são várias pessoas, opiniões, as pessoas escrevem  no site : não é preciso dar conta porque daqui a pouco esse amigo imaginário desaparece naturalmente, quando a criança crescer.
SM - Às vezes acontece para criança muito tímida, que tem dificuldade de relacionamento, ainda é muito insegura, vai levar um tempo de socialização e ela cria seus amiguinhos imaginários, natural por timidez. Esse é um caso. Mas existem os casos mais sérios que precisam ser investigados.

 

NG - Ser investigados você diz procurar um psicólogo, procurar um pedagogo? Como é que a mãe pode investigar?
SM - A gente não pode negar Nanci que existem casos de abuso, aí eu estou dizendo isso para o educador que está nos acompanhando, que vai suspeitar de uma criança que fica muito isolada. Você vai verificar se essa criança tem maus tratos, ela vai apresentar um distúrbio de comportamento, ela vai ser uma criança muito retraída, algumas vezes ela apresenta marca de violência.

 

NG - Quer dizer são outros componentes que o educador pode perceber?
SM - Agregados. A gente pensa que o abuso acontece numa esfera baixa econômica, não é verdade. O abuso acontece em todas as esferas econômicas.

 

NG - Eu também li que 75% dos abusos sofridos pelas crianças são feitos por parentes próximos. É verdade?
SM - Parentes próximos e dentro de casa.

 

NG - Como a mãe pode evitar isso?
SM - Infelizmente muitas vezes a mãe é conivente, quem pode descobrir isso é a professora.

 

NG - Como a professora percebe?
SM - Pelo comportamento da criança junto com o orientador educacional, junto com o diretor da escola, o psicólogo da escola, porque se chamar a mãe muitas vezes, e o pai, eles vão negar. Porque eu estou dizendo, isso ocorre muitas vezes dentro de casa.

 

NG - Às vezes o pai e a mãe estão sabendo o que está acontecendo?
SM - Ou muitas vezes o próprio pai é o violador, a mãe , o padrasto ou alguém dentro da família.

 

NG - A família finge que não vê?
SM - É por aí.

 

NG - Então o papel do educador é perceber e assim que ele percebe ele chama a família?
SM - Mas se é a família ou a família é conivente?

 

NG - Mas e quando a família fala que não?
SM - Então ele vai ter que ver uma esfera superior, uma esfera normalmente dentro judicial. Lógico que a primeira instância é chamada a família. Dependendo de como ele perceber a reação dessa família, e óbvio que não vai ser o professor sozinho, vai ter que falar com o diretor, com o orientador, com o psicólogo da escola. Quando a escola tem esse recurso certo. Nem sempre a escola tem esse recurso. Às vezes a família também não sabe, fica com o cuidador, uma empregada, ou outra pessoa, fica na casa de um parente ou com o vizinho.

 

NG – Vai para a casa da amiguinha, daí o irmão da amiguinha acaba abusando?
SM – Exatamente, e aí a família leva um susto, mas tudo isso tem que ser investigado.

 

NG – E ter um amigo imaginário é uma das dicas que a mãe tem que ficar alerta: “desde quando você tem esse amigo, o que você conversa com ele”?
SM – É uma defesa da psique da criança para sair daquele sufoco. E outro amigo imaginário, que não seria um amigo imaginário. Estou lembrando de uma aluna que eu tenho no curso de espiritualidade, no IJEP. Ela é pedagoga também e o filho dela, desde pequenininho, desde os três anos de idade, conversava com um amigo imaginário e esse menino tinha uma mediunidade precoce. E ela se assustou muito, ela como pedagoga leva pra cá, leva pra lá, e psiquiatra. E foi se desenvolvendo.

 

NG – Ele via espíritos então?
SM – Exatamente. O problema é, dependendo do pai e da mãe , ela era católica e o pai era católico, ele uma pessoa extremamente rígida, militar, tradicional, eles vieram a se separar obviamente. A mãe fez de tudo, foi estudar. Ela mudou toda a linha de crença dela, e vive pelo filho. Hoje trabalha ajudando crianças com o mesmo problema do filho dela.

 

NG – Então há como procurar grupos de ajuda, seja qual for a sua crença?
SM – Exatamente. Tem gente que não acredita nisso. Ela diz: “eu sofri muito porque muita gente não acreditava e dizia que meu filho tinha problema de demência”. Só que demência precoce não surge numa criança de três anos, ela é bem mais tardia. E hoje esse rapaz está formado, está muito bem colocado na vida, mas a mediunidade dele foi extremamente precoce com 3 anos de idade. Mas pra quem conhece mediunidade, desenvolvimento espírita, sabe que existem muitos médiuns, Gasparetto e Chico Xavier, por exemplo, que começaram extremamente precoces.